Confesso que são raros os escritos antigos que gosto de ler. Mas um ótimo texto é “Regra Pastoral” de Gregório Magno, que nos foi recomendado pelo Ricardo Barbosa quando veio a Caxias falar sobre formação espiritual.Gregório Magno foi papa (por insistência de outros, porque não queria), reformador da igreja, escritor e criador ou aperfeiçoador do “canto gregoriano” (que tem esse nome devido à sua influência).
“Regra Pastoral” (Paulus, 2010) é um tratado sobre a vida e o ministério do pastor. Gregório possui um notável conhecimento da alma humana e nos apresenta uma filosofia do ministério pastoral profundamente bíblica (apesar de sua interpretação por vezes alegórica demais), realista e compassiva. Gregório é uma espécie de Eugene Peterson do século VII.
Comentei minha admiração com o livro por email com o Ricardo Barbosa e a resposta dele foi: “É impressionante a sabedoria dos pais da igreja. Quando leio Gregório, e lembro que ele viveu 1500 anos antes de Freud, reconheço a imensa contribuiçao do cristianismo e lamento o quanto os cristãos valorizam muitas bobagens freudianas.”
Gregório nos alerta sobre os diversos e arriscados desvios pelos quais nós, como “cuidadores”, podemos incorrer em relação aos outros e a nós mesmos. Nossa alma é, de fato, nossa maior inimiga, se nos descuidarmos dela.
Um pequeno trecho do livro, da página 93:
O pastor de almas deve saber que, frequentemente, os vícios assumem a aparência das virtudes. Por exemplo, a avareza se apresenta, com frequência, com o nome de parcimônia, enquanto a prodigalidade [esbanjamento] se esconde sob o falso nome de generosidade. A indulgência excessiva é considerada bondade e a ira desenfreada, vigor de zelo espiritual. Com frequência, considera-se a precipitação como prontidão a executar, e a lentidão no agir como prudência de sabedoria. É, portanto, indispensável, que o pastor de almas seja muito atento para distinguir virtudes e vícios, a fim de evitar que, se a avareza toma conta do seu coração, ele se felicite por parecer um "bom administrador"; que se vanglorie por ter sido generoso, quando, ao contrário, a sua prodigalidade é esbanjamento... que enfrente com superficialidade aquilo que poderia ser administrado corretamente e com prudência, intervindo precipitadamente; que converta uma boa ação em má, procrastinando o seu cumprimento.
É nessas malandragens da alma que Gregório é especialista. Ele nos adverte sobre elas e nos desafia a vivermos de fato em integridade de coração - um coração que não se deixe levar por desculpas, que não se contente com as aparências e que não se enrede pelo autoengano.